Treino muito e minha testosterona caiu: o que é REDs e por que repor hormônio não é a resposta

Ele corre 70 km por semana, pedala no fim de semana e está mais magro do que nunca. Mesmo assim, chega ao consultório cansado, sem vontade de transar e com um exame de testosterona baixa na mão. A pergunta vem pronta: “Doutor, preciso repor?”

Na maioria das vezes, a resposta é não. O problema desse homem costuma não ser falta de hormônio, e sim falta de energia. A medicina do esporte tem um nome para isso: REDs, a Deficiência Energética Relativa no Esporte.

O que é REDs

REDs é o conjunto de problemas de saúde e de desempenho que aparece quando o atleta come menos do que o treino exige, por tempo demais. O nome foi criado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2014 e atualizado em um consenso de 2023.

O conceito central é a disponibilidade energética: quanta energia sobra para o corpo funcionar depois de pagar a conta do treino.

Disponibilidade energética=Calorias ingeridas−Calorias gastas no treinoMassa magra (kg)\text{Disponibilidade energética} = \frac{\text{Calorias ingeridas} – \text{Calorias gastas no treino}}{\text{Massa magra (kg)}}

Quando essa sobra fica baixa por semanas ou meses, o corpo entra em modo de economia. Ele passa a cortar o que considera dispensável para sobreviver, como reprodução, construção de osso e reparo muscular.

Isso nem sempre vem de dieta restritiva. Muitas vezes o atleta simplesmente aumentou o volume de treino e não acompanhou no prato, ou cortou carboidrato achando que melhora a performance.

O que acontece no homem

No homem, o sinal mais característico da REDs é a queda da testosterona. A falta de energia é percebida pelo hipotálamo, que reduz o comando para a hipófise. A hipófise, por sua vez, estimula menos os testículos, que passam a produzir menos testosterona.

Isso é o que chamamos de hipogonadismo funcional. O testículo está saudável; ele só está recebendo a ordem de trabalhar menos. Por isso, nos exames, o LH costuma vir normal ou baixo, e não alto como num testículo que falhou.

Desde os anos 2000, o pesquisador americano Anthony Hackney descreve um quadro parecido em homens com anos de treino de endurance: a Exercise-Hypogonadal Male Condition (EHMC), ou condição do homem hipogonádico pelo exercício. Hoje se entende que boa parte desses casos tem a falta de energia como pano de fundo, mas a discussão ainda está em aberto.

Um ponto de honestidade: a ciência sobre REDs em homens é bem mais recente e menos robusta do que em mulheres. Ainda não existe, por exemplo, um valor de corte de disponibilidade energética definido especificamente para eles.

E nas mulheres?

A história da REDs começou nelas. Nos anos 1990, descreveu-se a “tríade da mulher atleta”: alimentação insuficiente, perda da menstruação e ossos fracos. Em 2014, o COI ampliou o conceito para os dois sexos e para outros sistemas do corpo.

Na mulher, o alarme costuma ser mais visível: a menstruação fica irregular ou some. No homem não existe um sinal tão óbvio, e por isso o quadro tende a passar despercebido por mais tempo.

Sinais de alerta

Desconfie de REDs quando um homem que treina muito apresenta:

  • Queda de libido ou menos ereções matinais
  • Cansaço que não melhora com descanso
  • Desempenho estagnado ou piorando, apesar de treinar mais
  • Perda de peso sem ter tentado emagrecer
  • Fratura por estresse ou lesões que demoram a curar
  • Resfriados e infecções frequentes
  • Irritabilidade, sono ruim ou desânimo

Libido baixa com testosterona normal não descarta o problema. A libido é regulada no cérebro, e a falta de energia parece afetá-la antes de derrubar o hormônio no exame. Um estudo com atletas finlandeses de elite mostrou que a libido baixa autorrelatada andava junto com os outros marcadores de REDs. Além disso, a testosterona pode estar “dentro da faixa” e ainda assim ter caído muito em relação ao que aquele homem tinha antes.

Corredores de longa distância, ciclistas e triatletas são os mais estudados. Também correm risco esportes que valorizam peso baixo, como lutas, remo leve e escalada, e quem combina treino intenso com dieta restritiva ou low carb.

Como investigar

Não existe um exame único que confirme REDs. O diagnóstico junta história, exame físico e alguns exames, depois de descartar outras causas.

  • Testosterona total e livre, com SHBG. A falta de energia tende a aumentar a SHBG, o que pode deixar a total normal e a livre baixa.
  • LH e FSH, para mostrar que a origem é no comando central, e não no testículo.
  • T3 e TSH. O T3 baixo com TSH normal é um marcador clássico de restrição energética.
  • Hemograma e ferritina, para afastar anemia e falta de ferro.
  • Densitometria óssea, se houver fratura por estresse.
  • Questionário de triagem, como o LEAM-Q, criado especificamente para homens.

A coleta faz diferença: pela manhã, em jejum e, de preferência, depois de um dia sem treino pesado.

Tratamento: energia, não hormônio

O tratamento da REDs é devolver ao corpo a energia que está faltando. Na prática, isso significa comer mais, especialmente carboidrato nos dias de treino, ajustar o volume e a intensidade dos treinos e cuidar do sono. O ideal é um trabalho em equipe com nutricionista esportivo e, quando necessário, apoio psicológico.

Quando a energia volta, o eixo hormonal tende a se reorganizar sozinho. Há relatos de atletas com testosterona muito baixa que voltaram ao normal só com ajuste de alimentação e treino.

Por que não repor testosterona

  • Esconde a causa. O número melhora no exame, mas o corpo continua em déficit energético.
  • Não trata o resto. Ossos, imunidade, desempenho e humor continuam sendo afetados.
  • Prejudica a fertilidade. A testosterona de fora desliga o comando para os testículos e pode zerar a produção de espermatozoides, o que pesa muito para quem ainda quer ter filhos.
  • Cria dependência. Uma vez que o eixo está suprimido pela reposição, pará-la pode deixar o homem pior do que antes, por um tempo.

Uma revisão dinamarquesa de 2025 resume bem a mensagem: a queda de testosterona na REDs é funcional, e a reposição não deve ser iniciada.

Resumindo

Treinar muito e comer pouco é uma combinação que o corpo interpreta como ameaça, e a primeira coisa que ele economiza é a função reprodutiva. Testosterona baixa, ou libido baixa com testosterona normal, num homem que treina muito pede investigação, e não uma receita de reposição.

Se você se identificou com esse quadro, vale uma avaliação andrológica antes de qualquer decisão sobre hormônios. Entender a causa é o que protege sua saúde, seu desempenho e sua fertilidade.

Referências

  1. Mountjoy M, Ackerman KE, Bailey DM, et al. 2023 International Olympic Committee’s (IOC) consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). Br J Sports Med. 2023;57(17):1073-1097.
  2. Hackney AC. Hypogonadism in Exercising Males: Dysfunction or Adaptive-Regulatory Adjustment? Front Endocrinol. 2020;11:11.
  3. Lane AR, Hackney AC. Reproductive Dysfunction from the Stress of Exercise Training is not Gender Specific: The “Exercise-Hypogonadal Male Condition”.
  4. Functional testosterone deficiency in relative energy deficiency in sport. Ugeskr Laeger. 2025;187(40).
  5. Extremely Low Testosterone due to Relative Energy Deficiency in Sport: A Case Report. AACE Clin Case Rep. 2019;5(2):e129-e131.
  6. Low libido as a sign of male athlete REDs among Finnish elite male athletes. Universidade de Jyväskylä.
  7. A real-life snapshot: Evaluating exposures to low energy availability in male athletes from various sports. Physiol Rep. 2024;12(12):e16112.

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Guilherme Wood

Urologista e Andrologista

  • Graduação, residência e doutorado em Urologia pela Universidade de São Paulo.
  • Fellowship pelo Massachusetts General Hospital em Boston-EUA.
  • Especialista em cirurgia robótica, microcirurgia e infertilidade masculina.
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