O que o câncer de próstata do Joe Biden ensina sobre o PSA (e sobre você)

Em maio de 2025, o ex-presidente dos Estados Unidos foi diagnosticado com câncer de próstata Gleason 9 — o grupo de maior agressividade — já com metástase óssea.

O que mais chama atenção não é a gravidade. É como ele chegou ao diagnóstico: procurou avaliação por causa de sintomas urinários, o exame identificou um nódulo, e a investigação revelou a doença já disseminada.

O câncer não foi encontrado em exame de rotina. Foi encontrado porque o corpo reclamou.

Um homem com acesso irrestrito à melhor medicina do mundo foi diagnosticado do jeito que nenhum de nós quer ser. Se aconteceu com ele, vale entender por quê.

Um registro necessário: não sou médico do ex-presidente e não tenho qualquer informação além da divulgada publicamente. O caso interessa aqui como exemplo público de um problema que vejo no consultório toda semana.

Por que esse câncer é descoberto tarde

Câncer de próstata em fase curável não dá sintoma nenhum.

Não dói, não atrapalha o jato de urina, não muda a vida sexual. Um homem pode ter um tumor agressivo crescendo e se sentir perfeitamente bem. Isso acontece porque a maioria dos tumores surge na zona periférica da próstata, a parte mais distante da uretra — ele cresce bastante antes de comprimir qualquer coisa.

E aqui está a armadilha: os sintomas urinários que os homens associam à próstata quase nunca são câncer. Levantar à noite, jato fraco, demora para começar — quase sempre é hiperplasia benigna, o crescimento natural da glândula com a idade. Incômodo, tratável, e não é câncer.

Quando o câncer finalmente dá sintoma — dor óssea, dor lombar persistente, sangue na urina —, ele normalmente já saiu da próstata. E o objetivo do tratamento deixa de ser cura e passa a ser controle.

É para isso que existe o rastreamento: não para encontrar câncer em quem tem sintoma, mas em quem não tem.

A polêmica de 2012

Uma correção que sempre aparece na consulta: não foi a FDA que se posicionou contra o PSA. Foi o USPSTF, painel independente de medicina preventiva ligado ao Departamento de Saúde americano. Em 2012, ele classificou o rastreamento como grau D — recomendação contrária — para homens de todas as idades.

O argumento tinha fundamento, e vale entender qual era:

  • Sobrediagnóstico: o PSA encontra tumores que nunca causariam problema. Boa parte dos homens idosos morre com câncer de próstata, não de câncer de próstata.
  • Sobretratamento: o problema não era encontrar esses tumores, e sim o que se fazia com eles. Na época, encontrar significava quase automaticamente operar ou irradiar — com risco de incontinência e disfunção erétil em quem talvez nunca fosse adoecer.

Ou seja, o dilema era real.

O que veio depois. O número de exames caiu. E um levantamento com mais de 87 mil casos diagnosticados entre 2003 e 2013 em 150 instituições americanas mostrou aumento anual de cerca de 3% no diagnóstico de tumores de risco intermediário e alto. Menos rastreamento não fez menos câncer — fez o mesmo câncer aparecer mais tarde.

Do outro lado, o estudo ERSPC, com mais de 160 mil homens europeus, mostrou risco cerca de 30% menor de desenvolver doença metastática entre os rastreados, após 12 anos de seguimento.

Em 2018 o próprio USPSTF revisou a posição: dos 55 aos 69 anos, decisão individual e compartilhada com o médico; acima dos 70, rastreamento de rotina segue não recomendado. De “não faça” para “converse e decida”.


Como está no Brasil

O Ministério da Saúde não recomenda rastreamento populacional organizado — é uma decisão de política pública, sobre convocar ou não todos os homens de certa idade.

A Sociedade Brasileira de Urologia mantém posição mais ativa, porque aqui ainda há muitos diagnósticos em fase avançada:

  • A partir dos 50 anos: todos os homens, mesmo sem sintomas, devem procurar avaliação individualizada.
  • A partir dos 45 anos: homens negros e homens com pai ou irmão com câncer de próstata.
  • Após os 75 anos: apenas com expectativa de vida superior a 10 anos.
  • Sempre com decisão compartilhada, após discussão de riscos e benefícios.

As duas posições respondem perguntas diferentes: uma é “o Estado deve convocar todos os homens?”, a outra é “você, sentado à minha frente, deve fazer o exame?”.


O que mudou no tratamento — e por que o dilema de 2012 encolheu

O argumento contra o rastreamento partia de uma premissa: encontrar um tumor levava a tratá-lo, com sequelas relevantes. Essa premissa não é mais verdadeira.

Ressonância multiparamétrica. Antes de qualquer biópsia, avalia se existe lesão suspeita. Muitos homens com PSA alterado têm ressonância normal e não precisam de biópsia.

Biópsia dirigida. Quando é necessária, deixou de ser um sorteio de fragmentos: as imagens da ressonância são fundidas ao ultrassom e a agulha vai à lesão.

Vigilância ativa. Tumor de baixo risco não significa cirurgia. Significa acompanhamento estruturado, com PSA, ressonância e biópsias de controle.

Cirurgia robótica. Quando a cirurgia é indicada, ela hoje é muito menos agressiva do que a operação que gerou o receio dos anos 2000. A via robótica reduz sangramento, necessidade de transfusão e tempo de internação — e os ensaios clínicos randomizados mais recentes mostram vantagem também no que mais importa para o paciente:

  • Recuperação funcional. Em ensaio randomizado brasileiro, conduzido no Hospital das Clínicas da USP, a continência urinária foi superior à da cirurgia aberta aos 3, 6 e 18 meses — 95,4% contra 78,8% aos 18 meses —, com vantagem também na recuperação da função sexual nos primeiros meses.
  • Controle do câncer. No ensaio randomizado australiano, a recidiva bioquímica em 24 meses foi de 3% na via robótica contra 9% na aberta, diferença estatisticamente significativa. Metanálise recente reunindo os ensaios randomizados confirma menor recidiva bioquímica em 24 meses, com desfechos oncológicos comparáveis ou superiores aos da cirurgia aberta.

Ou seja: a leitura antiga de que a robótica traria apenas conforto pós-operatório não se sustenta diante dos estudos randomizados atuais. Ela entrega recuperação mais rápida, menos sequelas e, nos dados disponíveis, controle oncológico ao menos tão bom quanto o da cirurgia aberta.

Duas ressalvas que vale registrar: recidiva bioquímica em dois anos é um marcador precoce, e os dados de sobrevida em longo prazo ainda estão amadurecendo. E, acima de tudo, nenhuma tecnologia compensa um diagnóstico tardio — a chance de cura continua sendo determinada, antes de tudo, pelo estágio em que o tumor é encontrado. É por isso que este texto começa falando de PSA, e não de robô.


PSA alterado não significa câncer

O PSA é produzido pela próstata, não pelo câncer. Ele sobe por vários motivos sem relação com tumor: aumento benigno da glândula, prostatite, infecção urinária, ejaculação recente, ciclismo.

Um PSA elevado é um convite à investigação, não um diagnóstico — e a investigação hoje começa por imagem, não por biópsia imediata.

O inverso também vale: PSA normal não exclui câncer. Por isso o toque retal continua fazendo parte da avaliação. São poucos segundos, e ele detecta o que o PSA pode não mostrar.


Quando procurar um urologista

  • 50 anos ou mais
  • 45 anos ou mais, se você é negro ou tem pai ou irmão com câncer de próstata
  • Qualquer idade, se houver sintoma urinário novo
  • E, principalmente, se você tem mais de 50 anos e nunca fez uma avaliação urológica

Perguntas frequentes

PSA alto significa câncer? Não. Várias condições benignas elevam o PSA. Um valor alterado indica continuar investigando, geralmente com repetição do exame e ressonância.

Ainda é preciso fazer toque retal? Sim, ele detecta alterações que o PSA pode não mostrar e dura poucos segundos.

Se descobrirem câncer, vou ter que operar? Não necessariamente. Tumores de baixo risco frequentemente entram em vigilância ativa.

Tenho mais de 70 anos, ainda faz sentido? Depende menos da idade e mais da expectativa de vida. Acima dos 75, as diretrizes brasileiras reservam a avaliação a quem tem expectativa superior a 10 anos.


Conclusão

O caso do ex-presidente virou notícia política, mas o que ele ensina é clínico.

Câncer de próstata em fase curável é silencioso. Quando ele avisa, o cenário já mudou. A diferença entre um diagnóstico que se resolve e um que se administra pelo resto da vida costuma ser uma conversa com um urologista, na hora certa.

Se você tem 50 anos — ou 45 com fator de risco — e nunca fez essa avaliação, agende.


Referências

  1. Comunicado do escritório pessoal de Joe Biden, 18/05/2025 (cobertura: CNN Brasil, Exame)
  2. USPSTF. Screening for Prostate Cancer: Recommendation Statement. JAMA. 2018;319(18):1901-1913. PMID 29801017
  3. SBU — Aconselhamento para o Diagnóstico Precoce do Câncer de Próstata (portaldaurologia.org.br)
  4. Posicionamento conjunto SBU / SBOC / SBRT, 2023
  5. ERSPC — redução de ~30% no risco de doença metastática em 12 anos
  6. Genitourinary Cancers Symposium, 2015 — 87.562 casos, 2003-2013
  7. Suartz C, Nahas W, Ribeiro-Filho L et al. Perioperative, Oncological, and Functional Outcomes Between Robot-Assisted Laparoscopic Prostatectomy and Open Radical Retropubic Prostatectomy: A Randomized Clinical Trial. J Urol. 2025
  8. Coughlin GD et al. Lancet Oncol. 2018;19(8):1051-1060 — recidiva bioquímica 3% (robótica) vs 9% (aberta), p=0,0199
  9. Metanálise de ensaios randomizados e estudos prospectivos RARP vs cirurgia aberta, Int Urol Nephrol, 2026 — menor recidiva bioquímica em 24 meses, menor sangramento, transfusão e tempo de internação

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Guilherme Wood

Urologista e Andrologista

  • Graduação, residência e doutorado em Urologia pela Universidade de São Paulo.
  • Fellowship pelo Massachusetts General Hospital em Boston-EUA.
  • Especialista em cirurgia robótica, microcirurgia e infertilidade masculina.
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